Cirurgia plástica: necessidade ou obsessão?

Cirurgia plástica: necessidade ou obsessão?

OPINIÃO – Ao observar os casos cada vez mais recorrentes de pessoas que procuram as cirurgias plásticas como soluções para as suas vidas e dos médicos que perdem a sua ética profissional em prol do lucro, estudos comprovam que se trata de um problema que precisa de ser analisado em profundidade. A questão da beleza versus sociedade contemporânea decorre da instauração da nova sociedade de consumo, quando o novo corpo entrou no rol das mercadorias vendáveis.

A sociedade contemporânea vive uma incessante procura – ou vontade –de perfeição. Essa falta de limites para atingir o padrão estético pode ser considerada um sintoma de desequilíbrio psicológico. Ainda mais se considerarmos que esse ideal de perfeição é, razoavelmente, impossível ao ser humano. Somos todos construídos na diferença.

A esse culto exagerado à beleza (e à perfeição), podemos atribuir, de certa forma, uma parcela de culpa não só do sujeito, como de toda uma cultura do consumo, que valoriza o narcisismo e a imagem. A nossa cultura acentua os mecanismos neuróticos quando exclui os sujeitos que fogem ao ‘padrão’ de perfeição (que não existe).

Seguindo essa lógica de busca pela beleza e perfeição, encontramos como prova as diversas e cada vez mais crescentes cirurgias plásticas. Os indivíduos recorrem cada vez mais às técnicas científicas e da medicina para poder alterar a sua imagem, a ponto de deixá-la como deseja. As motivações para essas cirurgias são singulares, o pano de fundo é que é a cultura. Cada um sente necessidade de aperfeiçoar o ‘seu’ imperfeito (que para cada um é uma coisa diferente).

Cirurgia plástica: necessidade ou obsessão?
Quando se torna numa obsessão.

Essa massificação da cirurgia plástica pode ocasionar diversos problemas psicológicos, que alteram e estão relacionados à auto-estima e auto-imagem, por exemplo. Nesse contexto, observamos o desenvolvimento de variadas neuroses, como a histeria, presente, curiosamente, em diversos pacientes do sexo feminino.

No entanto, para analisar essa busca à beleza e as consequências, primeiro teríamos que definir o que é beleza. Beleza ou juventude? Parece-me que as pessoas buscam perpetuar a juventude – que é passageira, como a vida –, e se esquecem de cultivar a beleza. Acabam deformados e sem construir o que de fato é belo no humano: os valores.

Os média aparecem como grande motivadores da prática de cirurgias plásticas, em relação ao culto, à beleza, às celebridades, etc. O problema é que eles é quem alimentam o padrão a ser consumido. É a mola do consumo neste capitalismo avançado. Talvez pequenas acções isoladas sirvam de exemplo, como a maior reflexão ao que vem acontecendo na sociedade, em relação ao aumento de casos de cirurgia plástica e pessoas cada vez mais insatisfeitas.

Ao psicólogo cabe auxiliar o indivíduo a melhorar a sua autoestima, habilidades sociais, conhecer-se a si mesmo e ás suas reais motivações. O limite, para que se perceba quando o paciente está com problemas psicológicos em relação a esse problema com a sua imagem, dá-se quando começam a ser percebidos certos excessos e isso se torna uma angústia incontrolável. Para avaliar a necessidade de um verdadeiro tratamento psicológico, somente analisando caso a caso. De forma geral, todo cuidado é pouco para não virar um boneco do capitalismo.

Luciana Sander – Psicóloga
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