Feminismo como negócio para as marcas de moda?

OPINIÃO – Terá perdido o feminismo a força por se converter numa tendência ou pode a sua mensagem permanecer intacta perante os flashes e a maquilhagem?

O feminismo está na moda e, embora essa afirmação possa agitar muitos, mesmo aqueles que não consideram que esta realidade encerre um problema, fazem a mesma pergunta. A moda pode ser feminista? Há perversão na tendência da mensagem feminista? De repente, uma simples camisa é capaz de reivindicar a igualdade, e, embora a política e a moda caminhem de mãos dadas, as vendas de Christian Dior não esgotaram depois de lançar a t-shirt “We should all be feminists” no desfile Primavera/Verão 2017, onde a peça da temporada mostrou à moda que se pode combater sem a conta dos resultados ser afectada.

Jonathan Simkhai deu como presente às celebridades do seu “front row” uma t-shirt que dizia “Feminist AF”, enquanto Prabal Gurung apresentava no seu desfile tops, que diziam entre muitos outros lemas feministas, “My boyfriend is a feminist” e “The future is female”. A t-shirt que exibiu pela primeira vez esta mensagem remonta a 1972, quando Jane Lurie e Marizel Rios abriram a primeira livraria para mulheres em Nova Iorque, Labyris Books, cujo slogan era “The future is female”.

“The future is female”

Ambas imortalizaram esta mensagem em t-shirts e pins mais tarde. Quando a fotógrafa Liza Cowan fotografou a sua namorada, Alix Dobkin, com essa t-shirt em 1975, o lema tomou as ruas. 40 anos depois, Cara Delevingne foi fotografada com uma camisola com esse lema, o mesmo que usava na altura a sua noiva, Annie Clark (a.k.a. St. Vincent). A modelo britânica também posou com a camisola junto à modelo Adwoa Aboah.

Enquanto a t-shirt de Dior era usada por celebridades como Natalie Portman, Rihanna, Asap Rocky e Chiara Ferragni e o feminismo estava à vontade nas imagens de “‘street style” e nas capas das revistas de moda mais importantes, o tapete vermelho abriu as suas portas ao empoderamento feminino nas mãos de Lingua Franca quando a actriz Connie Britton usou nos Globos de Ouro o sweater que dizia “usava o suéter que diz “Poverty is sexist”. Após a sua aparição, Reese Witherspoon encomendou à marca mais vinte camisolas com a mensagem “Time’s up” bordado.

O low cost

Como esperado, as empresas “low cost” aderiram à tendência. Tezenis e Stradivarius são algumas das marcas que fizeram do feminismo a sua bandeira, por muito que a alma feminista daqueles que impuseram essa mensagem em t-shirts possa ser questionada ao apresentar o lucrativo desejo de reivindicar, a verdade é que é sempre mais gratificante ler mensagens feministas de que o o tradicional “‘Fuck me I´m famous”. Chiara Ferragni também se apontava ao feminismo “bestseller” ao criar peças com mensagens feministas em conjunto com as marcas Melida e Jaydee.


O “affaire” do feminismo com a moda vem de longe e a sociedade patriarcal não hesitou em expressar a sua insatisfação com esta aventura em muitas ocasiões. O editor do primeiro jornal feminista “The Lily”, Amelia Bloomer, decidiu usar calças para desfrutar do conforto dos seus colegas do sexo masculino. “Gleason´s Pictorial” escreveu em meados de 1800 que estes desenhos “deixavam os pobres maridos chorando em casa com os seus filhos completamente a seu cargo”. A mensagem, é claro, tinha um espírito libertador e tornou-se um sinal de alerta. Nos anos 30, Coco Chanel fez de duas peças uma arma feminista e foi precisamente a marca que em 2014 fez do feminismo o protagonista de seu desfile.

Moda feminista

O debate sobre se falar sobre moda feminista é um oxímoro ou não é infinito. Ao fim e ao cabo, Germaine Greer interrogava-se em “The change” (1991) como uma mulher podia saber quanto podia andar ou a velocidade com que poderia correr se nunca se baixasse dos tacões. “Sempre houve um antagonismo entre a moda e as mulheres poderosas, porque existe a crença de que uma mulher deve sacrificar a sua feminilidade para alcançar o poder, autoridade e respeito. Nunca entendi essa noção e nunca faria o que estou a fazer se acreditasse”, disse Prabal Gurung em 2013.


“Moda Operandi” diz no seu editorial feminista que “o novo feminismo da moda ultrapassou a t-shirt com a mensagem para celebrar a confiança resultante de vestir como te queiras sentir, seja de forma poderosa ou sexy. Embora o que para alguns é poderoso, para outros, será sexy, então o que realmente importa é o que tu opines”.

E aí reside a chave da moda feminista. Talvez algumas empresas se tenham adaptado ao feminismo para aumentar as suas vendas ou seguir uma tendência específica, mas se aquele que leva o desenho em questão faz isso com uma ânsia reivindicativa, a moda e o feminismo são a combinação perfeita.

Diana Baptista

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