O que aprendi com as acusações sexuais a Morgan Freeman

O que aprendi com as acusações sexuais a Morgan Freeman

OPINIÃO – Até que ponto o fascínio e admiração que sentimos por alguém nos cega perante os seus erros?

Os ídolos estão presentes na nossa sociedade há muitos séculos. No passado, apenas divindades eram adoradas ou representadas, mas pouco a pouco o conceito foi usado para se referir a pessoas que superavam padrões diferentes. Hoje, quase todo o mundo admira alguém; seja um atleta de alta performance, um cantor ou um defensor dos direitos humanos. Nós idolatramo-los porque ansiamos que um dia, possamos ser como eles. Mas até que ponto o fascínio por alguém nos pode cegar?

Geralmente essas pessoas são consideradas “super” humanos, incapazes de cometer qualquer falha.

Tal é o caso de Morgan Freeman, um homem com uma carreira até Há poucos dias atrás considerado como sem defeitos. Um homem que não só foi reconhecido pelo seu talento como ator, mas por ser um dos principais lutadores do racismo na sociedade americana. Mas depois da CNN lançar a agora famosa investigação na qual oito mulheres e oito outras pessoas o acusam de abordagens indesejáveis e comentários inapropriados, inúmeras opiniões surgiram em torno deste escândalo.

O que aprendi com as acusações sexuais a Morgan Freeman

Esta investigação, embora tenha testemunhas e dois vídeos filtrados, foi duramente questionada pela opinião pública e aqueles que tiveram a coragem de levantar a voz foram crucificados.

Por isso, deixo quatro pontos que considero importantes na reflexão deste caso.

  1. Por que demoraram tanto tempo com a denúncia?

Uma das principais características do assédio laboral é que na maioria das vezes é exercido por alguém com maior hierarquia ou autoridade, pois sente-se confiante o suficiente para o fazer sabendo que não terá quaisquer consequências, é quem tem o poder e controle total da situação. Por isso, não é de admirar que um assistente de produção ou um repórter tenha pensado nisso milhares de vezes antes de denunciar uma pessoa que é reconhecido como um dos homens mais influentes do setor.

  1. A diferença entre elogios e assédio verbal

Um elogio é um comprimento ou algo que geralmente é dito numa situação de namoro. No entanto, parece não estar claro que esses “elogios” num local de trabalho não costimam geralmente ser bem recebidos, pois implicam de antemão uma situação desconfortável. De acordo com as duas gravações filtradas, estes são os “elogios” que o actor fez a duas repórteres:

O que aprendi com as acusações sexuais a Morgan Freeman

“Meu Deus! Está casada? Gosta de se divertir com homens mais velhos? Só quero pergunto” (2016 entrevista ET, London Fallen, Ashley Crossan). No final da entrevista, a repórter levantou-se, agradeceu o tempo e disse que foi um prazer conhecê-lo, ao que ele respondeu “olha para ti”, enquanto olhava para o seu traseiro.

Numa entrevista anterior com Janet Mock, o ator fez o seguinte comentário: “Eu não sei como todas vocês o fazem para fazer isso o tempo todo […] tem um vestido que está a meio do caminho entre os seus joelhos e os seus quadris. E senta-se bem na minha frente, e cruza as pernas” (2015, Entrevista ET, Janet Mock).

Estas frases enquadram-se definitivamente na categoria de “comportamento questionável”. O mais preocupante é como alguém pode estar confiante em fazer esses comentários na frente de uma equipa de produção inteira com câmaras a filmar, e não se interrogando se o que fazem está errado.

  1. Assédio surge em apresentações diferentes.

Um dos principais problemas que se tem atualmente para detetar uma situação de assédio, é que regularmente quando pensamos sobre o assunto, imaginamos que a pessoa que o faz tem todas as características de “má”, quase o podemos visualizar com um tapa-olho e dentes de metal. O que devemos aprender com este caso é que o assédio pode vir de qualquer pessoa, não importa quão bonita, inteligente ou quão pobre ou rico seja. Às vezes o lobo veste um fato de ovelha.

  1. Ações boas ou más não são compensadas por pontos

O fato de uma pessoa ter feito muitas coisas boas na sua vida não “compensa” ou “elimina” as coisas más que fez. Devemos separar cada situação; Por exemplo, neste caso, o que criou uma produtora para que os afro-americanos tenham uma presença maior no cinema não lhes dá o direito de perseguir os seus próprios funcionários.

O que aprendi com as acusações sexuais a Morgan Freeman

Enquanto Morgan Freeman não deixa de ser alguém admirável pelos seus talentos e inúmeras ações humanitárias, este escândalo não só deve fazê-lo refletir sobre as suas ações, o importante é definir o precedente para que nenhum outro “ídolo”, por mais poderoso ou bem visto que seja, se sinta suficientemente confortável para fazer o que quiser, sem quaisquer consequências.

Jorge Salgado

Imagens: divulgação




Sem comentários ainda

Comentários estão encerrados

Tendências Online Portugal Shopping Online Ignorar

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.