Selfies: uma forma de exibicionismo?

Selfies: uma forma de exibicionismo?

Selfies: uma forma de exibicionismo?

OPINIÃO – A fotografia sempre esteve presente nas nossas relações e, com as redes sociais, passou a mostrar-se como uma forma de elogiar, agradecer e registar momentos. Estes que não são mais apenas de poucos, são de todos. Existem, acredito, as fotografias feitas apenas para registar bons momentos, mas vemos também uma enxurrada de relações baseadas nas aparências das redes sociais.

Estávamos em 2013. Uma tradição anual do Oxford Dictionary escolheu um termo da língua inglesa considerada a “palavra do ano”. São conhecidos os debates entre os linguistas da casa ao redor do termo da vez, que raramente é unânime. Mas naquele ano, todos sabemos (pelo menos quem está mais atento às notícias) que isso não foi o que sucedeu. A decisão foi unânime, quase não houve discussão: a palavra de 2013 foi “selfie”.

Mas façamos aqui um compasso. A “selfie” não é mais do que um auto-retrato. E um auto-retrato é um costume antigo. Há relatos de que, no século V a.C., Fídias deu a uma escultura do templo de Parthenon, em Atenas, o seu rosto. Mas foi só no Renascimento que o género ganhou força, expandindo a capacidade de expressão artística. Munidos de espelhos de grande qualidade, que então se popularizavam, mestres usaram o auto-retrato como caminho para o auto-conhecimento: as criações intimistas revelaram vários estados de espírito – um contraponto a temas como a narrativa épica e o convívio social. Artistas como o alemão Dürer (1471-1528) e o holandês Rembrandt (1606-1669) foram pródigos na arte, retratando várias vezes o próprio rosto. Ao mesmo tempo que revelavam a si mesmos, construíam uma imagem pública.

Selfies

A questão

Mas então, interroga-se o leitor, onde reside o cerne da questão?

Em busca da aprovação de amigos – e quiçá atrás de celebridade – as pessoas divulgam as suas “selfies” no Facebook, Twitter ou Instagram.

Nestas redes sociais, principalmente, os internautas divulgam as suas “selfies” com frequência. Uma rapariga à beira de uma piscina com um fantástico biquíni, noutro local – maioritariamente em casa – também bastante sexy, desta vez com uma saia curta ou calças justíssimas. Outros divulgam os seus “selfies” que variam dependendo da fase: a intelectual – com óculos e lendo; a desportiva – com uma raquete num campo de ténis; a fase relaxada – numa praia. E por aí vai.

Quando são adolescentes com egos do tamanho do universo é mais compreensível, embora os pais devessem ensiná-los que tudo tem um limite.

Mas e quando são mais velhos, e argumentam que só querem dividir as suas vidas com os “amigos” (mais sobre os “amigos” abaixo), os seus objectivos ao divulgar  “selfies” são (muito) mais questionáveis.

Independentemente da faixa etária do autor da “selfie”, a parte mais difícil é o veredicto.

Cresce de forma incontrolável o fenómeno. O ser humano criou a necessidade de se expor num grupo virtual. É possível criar fantasias nesse mundo e uma imagem daquilo que gostaria de ser.

Selfie levada ao extremo
Selfie levada ao extremo
Valorização pessoal

A sociedade vive um momento de super-valorização do “eu”. As pessoas constroem a personalidade de forma a ter mais visibilidade, é uma maneira de se transmitirem para o mundo. E isso ocorre de forma instantânea. Uma vez publicado, um post pode receber imediatamente “likes” ou comentários. A celeridade na reacção dos amigos é um dos factores que trazem bem-estar. Se o grupo se comportar com indiferença, o internauta tende sentir-se um fracassado.

Mas que as “selfies” se tenham se tornado numa versão moderna de comunicação e valorização social, até seria compreensível, mas até que ponto se auto-fotografar de forma completamente insaciável será ainda um resquício artístico de tendências pré-históricas? Na verdade, não sei responder

Selfies: uma forma de exibicionismo?

O egocentrismo é uma característica da personalidade humana que remete ao indivíduo que prioriza a si e aos seus desejos diante da realidade, tornando-se imerso numa fantasia apropriada a esse padrão de aceitação e não olhando para a realidade da vida social e das necessidades de outros indivíduos em relação às suas. Quando age nesses parâmetros, a pessoa costuma apresentar falta de habilidade para conduzir situações sociais quotidianas, mostrando dificuldade em se colocar no lugar das demais pessoas (falta de empatia) e demonstrando pouco vínculo com o contexto e com quem nele convive.  Todavia, a moda das “selfies” tem demonstrado que muitas pessoas agem com muito egoísmo em tais fotos que isso pode ser um reflexo do seu modo de vida.

Alguns casos chegam a ser tão bizarros que me interrogo (e vocês deviam fazer o mesmo) sobre o que se passa com essas pessoas? Existe algo de errado com elas? Faltam-lhes controle emocional, possuem algum transtorno psicológico?

E as relações pessoais? Os sentimentos? Como se sente fulana “a” porque tem 10 “likes” e a fulana “b” 100? Inferiorizado, claro. O que talvez desconheça é que a fulana “b” colocou maquilhagem a mais, ou usou um ângulo diferente, tirou cerca de 100 fotos para publicar uma?

As relações tornam-se apenas aparência. O exibicionismo é visto como algo comum e, não fazer parte disso, é ser diferente. Onde nos vai levar esse narcisismo? Não vejo problemas em “selfies” (adoro inclusive), mas sim na ânsia de exibir todo e qualquer momento, real ou não.

Cristina Lopes – Psicóloga
Imagens: divulgação Selfies: uma forma de exibicionismo? .  .
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