Tudo por um like: vale a pena perder a vida?

Tudo por um like: vale a pena perder a vida?
OPINIÃO – Celia Fuentes era uma “influencer” espanhola, tinha sucesso, 27 anos e, teoricamente uma vida pela frente. Não a conheci pessoalmente, mas como editor ouvia com alguma frequência o seu nome. Que, de resto, se assemelha a muitas outras com a mesma actividade.

A verdade, é que Celia não é o primeiro caso de suicidio que tive (lamentavelmente) a oportunidade de noticiar e, acredito, inevitavelmente não será o último.

Em conversa com uma colega psicóloga, fui alertado para o facto de cada vez mais existirem pessoas que sentem não valer nada se os outros, de qualquer forma, não as reconhecerem. Depressão, ansiedade, transtornos alimentares, são a tónica de uma profissão idílica que muitas jovens anseiam. E no final, há desenlaces extremos, como os de Celia.

Ao ler as noticias sobre a sua morte, não pude deixar de ler o testemunho de uma blogger ao jornal espanhol “El Mundo”.  É um reflexo real da realidade que sofrem os jovens que querem ser “influencers”.

“Pedem um determinado plano da foto, seja de perto ou detalhe. Que segurem no produto de uma forma ou de outra, peguem no sapato e tragam-no para o rosto ou coloquem a bolsa de chá para que se possa ver pendurada na carteira. Ridículo! Não importa o que anuncies, seja em um biquíni ou fato de banho pelo nariz”, menciona a dita blogger.

É o preço a pagar por viver da imagem.

3 dias depois desta imagem aparentando felicidade, Celia Fuentes suicidou-se.
3 dias depois desta imagem aparentando felicidade, Celia Fuentes suicidou-se.

O que é um influencer? O termo refere-se a pessoas com conhecimento, prestígio e presença em certas áreas onde as suas opiniões podem influenciar o comportamento de muitas pessoas. É uma denominação usada no mundo 3.0. Há quem apoie essa influência numa página da web ou blog – bloggers – e aqueles que fazem isso somente através das suas redes sociais – instagramers, tweeters.

Porque um “like” nessas redes está cada vez mais caro. Não apenas em termos monetários: os profissionais do Instagram, Twitter ou Facebook acusam cada vez mais de pressão sobre a sua saúde emocional. Também as condições de trabalho impostas pelas marcas têm consequências nefastas.

“Exigem que pareças feliz, que estejas contente”, disse essa blogger, que prefere permanecer anónima para não ver seus negócios afectados. O último caso conhecido é o de Celia Fuentes (27 anos), que foi encontrada morta depois de passar por um período depressivo, embora todos os seus perfis reflectissem o contrário. Mas não é o único caso.

Celia Fuentes amava a vida.
Celia Fuentes amava a vida.

Acreditem, perdi algumas horas debruçado sobre este assunto.

A propósito da morte de Celia, também um artigo no mesmo jornal me chamou á atenção: “A dinâmica pode ser perigosa. Todos nós gostamos de gostar e precisamos, em maior ou menor grau, de aprovação social. O que fazemos, no final, é alimentar o ego através da vitrina das redes sociais”, afirma Cristina Wood, uma psicóloga especializada em ansiedade, stress e depressão. “Like” a “like”, o cérebro humano recebe uma descarga de dopamina que gera prazer e vicía, como qualquer droga.

O máximo de possíveis “likes” é também o objecto de desejo de mais e mais marcas, que vêem um nicho de mercado nos usuários das rede. No começo, eram empresas de roupas ou cosméticos. Agora, creme para as mãos, pasta de dentes ou até saquinhos de chá, diz a blogger. O último fenómeno é cada vez mais agressivo, ao lado da extorsão. “As marcas pressionam as raparigas, que fazem isso quasde de forma gratuita e entram num loop sufocante. Chegam a ameaçar com “multas” a quem se recusar. É difícil aguentar quando não és uma pessoa com mais maturidade e educada, que não tem uma equipa atrás, porque te segue a tua inexperiência e fome de sucesso “, diz essa jovem, que tem mais de 30 mil seguidores.

É evidente que a pressão pode afectar a estabilidade emocional do trabalhador digital. Por um motivo muito simples: se a pessoa está minimamente insegura, sob essa pressão, ela torna-se tremendamente vulnerável. Então coloca “uma máscara” e tenta fazer o que ela acha que os outros esperam dela. Uma espiral de ansiedade a partir da qual é difícil sair.

Conheço casos de Influencers de maior renome que também sofreram. A blogger Aimee Song, com 31 anos, que tem cerca de cinco milhões de seguidores, passou pelas suas horas mais baixas devido a esse fenómeno. Ela mesmo confessou ter pensamentos suicidas num vídeo na sua conta do YouTube. Em lágrimas, Song lamentava-se: “O mais complicado de ser uma blogger ou mostrar a minha vida é fingir que estou sempre feliz […]. Às vezes sinto-me tão triste e vazia por dentro. Especialmente ultimamente, quando penso que a vida das pessoas parece perfeita”.

Celia Fuentes

Celia Fuentes era uma jovem extremamente sensível, que não aguentou a pressão do mundo da moda aliada a outros problemas pessoais.

E depois temos o lado que praticamente ninguém aceita porque dói. Pese o facto de o nosso dever ser aceitar essa dor, avaliar o porquê, e corrigir o motivo. Falo da crítica. Está na natureza humana temer a crítica.

Mas, nas redes sociais, esse medo irracional aumenta. Teoricamente o pior que pode acontecer é que alguém não recebe um “like”, que não chegue esse reforço social. E digo teoricamente porque na pratica, o pavor acaba por tomar as rédeas do protoinfluencer até criar uma espécie de visão em túnel da perfeição da vida dos outros diante da própria miséria.

A importância, no final, consiste em saber como identificar os nossos sentimentos, entender as nossas emoções e saber como as gerenciar.

Celia morreu por uma causa. Ou deverei dizer, por causa de…?

Paulo Costa

Imagens: Instagram
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